Carta a respeito da decisão judicial em Belo Horizonte (MG), que autorizou o aborto de um bebê de seis meses de gestação devido a uma anomalia na bexiga:
1. Em primeiro lugar, me solidarizo como cristão com o sofrimento do casal, dos parentes e amigos. Nenhuma gravidez é sonhada para ser feita com dor ou frustração, muito menos com a sua interrupção. Não sou mulher, não consigo estar plenamente no lugar dessa dor, mas tenho sobrinhos e sei o quanto uma gravidez é um sonho e uma bênção para todos.
2. Se o casal em questão é cristão, recordo que o discernimento da sua consciência precisa levar em consideração não apenas uma autonomia decisional, mas valores que são universais e absolutos , e a vida nascente é completamente desprotegida e precisa da nossa tutela como o fez o Cristianismo desde o seu nascimento. Somos o que somos, pela Graça de Deus que mostrou que a dignidade da vida humana e do corpo humano são fundadas na Encarnação de Jesus, que foi embrião, feto, nascituro e plenamente humano.
3. Se o casal não for cristão, ainda é preciso recordar que devem existir na Sociedade civil organizada, mínimos morais que garantam que o ser humano absolutamente desprotegido seja tutelado. Ora, não acabamos com o flagelo da escravidão e denunciamos, lutamos e combatemos tantas mazelas sociais que desprezam a carne humana: Assassinatos, roubos, chacinas, desprezo pela fome, miséria, saúde publica, o desemprego e tantas outras chagas DEVEM ser denunciadas e combatidas por TODOS que se declaram “PRO VIDA”, crentes ou ateus, porque humanos somos todos e estas não são situações menos importantes. Apenas o que diferencia o aborto destas mazelas é a absoluta incapacidade do embrião e do nascituro de se defender e dizer uma única palavra! Somos nós todos que já fomos humanos neste momento do crescimento celular e corporal que devemos buscar no coração o sentimento necessário para se SOLIDARIZAR, se colocar no lugar do outro, como na parábola do SAMARITANO, que desce ao chão e cura as feridas do caído.
4. É inaceitável que uma sentença judicial atropele a decisão soberana de uma sociedade civil organizada que permanece discutindo para si a moralidade comum da defesa do nascituro – acima de valores religiosos,pois somos um Estado laico, mas não prescindindo destes – para que sejamos considerados não um aglomerado de convicções e sentimentos individuais, mas uma nação com história e com perspectivas de manter a dignidade humana.
Precisamos nos perguntar se o mesmo Ordenamento jurídico que tutela tantas outras situações vexatórias para o ser humano pretende alegar que o sofrimento psíquico individual – ainda que digno de consideração – seja superior ao valor coletivo de um bem que iguala a todos na mesma carne.
5. Por fim e não menos importante – é contraditória toda uma sociedade que protege o direito dos animais (importante e muito maravilhoso, e ainda necessário de ser aprofundado), cuidando de preservações de espécies em extinção como as tartarugas, dentre mil outros exemplos, bem como a infinita quantidade de reportagens, situações onde os animais domésticos são valorizados como saudáveis companheiros das famílias em geral e não conseguir ser AMOROSO, próximo e solidário com o embrião e o nascituro. É uma contradição que vai além da esfera religiosa ,seja cristã católica ou protestante, mas atenta a própria lógica da sobrevivência, pois não conseguimos ser EMPÁTICOS com nosso semelhante, que nos deu a vida. Recordemos: outro dia foi dia das mães…
6. Como Igreja precisamos continuar mostrando estas contradições do nosso próprio povo , seja na Legislação, no Parlamento ou na opinião pública e pedir que todos atentem ao valor inegociável da vida nascente desprotegida.
Padre Otávio Juliano de Almeida
Coordenador do Comitê Arquidiocesano de Bioética