Paróquia

Comunidade Santa Rosa de Lima

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Quarta-feira
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"Ele veio morar entre nós" (Jo 1,14) - Por: Dom José Otacio Oliveira Guedes

“Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14)

 

À luz da Campanha da Fraternidade 2026, somos convidados a contemplar, com coração sensível, o Deus que não permanece distante, mas que escolhe fazer-se vizinho, companheiro de caminhada e presença amorosa no meio do seu povo. Ao recordar que o Senhor “veio morar

entre nós”, somos chamados a abrir espaço para Ele na vida concreta, reconhecendo sua tenda armada nos pequenos, nos frágeis e, de modo particular, naqueles que não têm um lar.
A ternura divina se revela na encarnação do Verbo e continua a se manifestar, hoje, especialmente nos rostos mais sofridos.

A história da salvação é a história das visitas de Deus aos homens e mulheres. Ele nos visitou tanto, que decidiu, na plenitude dos tempos, vir morar conosco. Do passeio de Deus no jardim do Éden, passando pela hospedagem na casa de Abraão e Sara, chegamos àquela presença
extraordinária no deserto, pela nuvem e pela coluna de fogo, no caminho entre a casa da escravidão e a terra da promessa. Visitou seu povo, ademais, pela palavra poderosa dos profetas: seja para firmá-lo com promessas, seja para ajustá-lo com correções. O Senhor sempre esteve ao alcance das súplicas do seu povo.

Essa presença, porém, encontra uma crise motivada pela dura cerviz do povo da promessa. Esse povo impaciente e murmurador não merece a companhia de Deus, ou melhor, não pode o “fogo abrasador” habitar em meio à palha seca. Como poderia Deus, o Santo, manter sua presença em meio a essa geração de coração duro, de pecadores? Aqui entra a reserva insuperável de paciência de Deus, sua misericórdia e gratuita bondade. O Senhor supera o impasse pela sua indulgência, por não nos tratar como merecem nossas culpas.

De outra parte, há também uma crise da parte do profeta, que sente, na sua percepção, a aparente ineficácia da presença de Deus, que parece não ver o mal, a dor, as injustiças gritantes na história. Habacuc pergunta: “Até quando, Senhor?”. O Senhor pede ao profeta que tenha paciência e verá que Deus é fiel, e que o justo viverá dessa fidelidade que não falha.

Nesta história grávida de uma Palavra que a iluminasse e nos trouxesse uma esperança estável, temos a encarnação do Verbo. Deus, que havia falado de diversas maneiras e nos visitado de muitas formas, veio morar entre nós. Não precisamos ir à “tenda do encontro” para
estar com Deus. Ele armou sua tenda entre nós. Em Jesus, encontramos Deus. Ele é a verdade onde prestar o culto que agrada ao Pai; Ele é o Filho, a Palavra plena e cheia de luz. Nele temos o alento da força mansa, mas eficaz, dentro da nossa história.

Mas onde encontrar Jesus? Um lugar especial onde Ele marca encontro conosco é na pessoa dos mais frágeis. Entre os frágeis estão aqueles que não têm uma casa, uma morada para expressar sua dignidade dada pelo Criador.

Esse Deus bom e próximo do ser humano pode não ser experimentado como bom por quem as circunstâncias da vida conduziram à dureza da falta de amparo. Eles podem ecoar o “até quando, Senhor?” de quem sente Deus distante. A experiência diz que são os abastados, e não
os carentes, os que mais facilmente se esquecem de Deus. Mas seria doloroso que um dos pequeninos, dos frágeis, perdesse sua fé confiante no Deus bom por causa do desamparo. Isso seria terrível e culposo para nós, os discípulos do amigo dos pobres, d’Aquele que se fez um
deles para nos enriquecer.

São muitas as iniciativas que podemos assumir para ajudar os que não têm habitação. A primeira delas deve ser dar-lhes morada em nossos corações, fazer-nos próximos, compadecer-nos. Deus se faz eficaz na vida deles por meio de nós, discípulos de Jesus, que escolheu morar conosco até o fim dos tempos, quando, então, Ele será tudo em todos.

Diante do Deus que escolheu morar entre nós e que continua a se revelar nos mais vulneráveis, a Campanha da Fraternidade 2026 nos impulsiona, ainda, a transformar fé em cuidado concreto dentro de nossos territórios. Isso significa fortalecer iniciativas comunitárias de
acolhida, promover mutirões que identifiquem e acompanhem famílias em situação de moradia precária, articular parcerias com serviços públicos e organizações locais para garantir direitos básicos e criar espaços de escuta onde os mais frágeis possam ser vistos e
amparados.

Além disso, somos chamados a investir em processos de formação comunitária, rodas de conversa e momentos de conscientização que ajudem nossos irmãos e irmãs a compreender a gravidade da falta de moradia e a responsabilidade cristã diante desse sofrimento. Cada gesto de proximidade — seja visitar, mapear necessidades, apoiar políticas habitacionais, promover formação ou mobilizar a comunidade para ações solidárias — torna-se expressão viva da tenda de Deus armada entre nós. Assim, caminhamos para que ninguém se sinta abandonado e para que a presença amorosa do Senhor seja experimentada de forma concreta em cada canto de nossas comunidades.

 

Dom José Otacio Oliveira Guedes (Bispo Auxiliar na Arquidiocese de Belo Horizonte)

Contribuições: Renata Senhorinha Santiago (Pastoralista)

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